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13 March 2010

"Tristeza vem e passa", de Ana F.

meu coração, quando chega perto,
sabe que está pulsando um sangue diferente
meu olho para por aqui e não quer ver o resto
tosco que invade o mundo atrevidamente
é como um samba que se move
devagar dentro da gente
é como um rio, como água, como matar a sede:
nada
minha serra
de caroços na cabeça
um formato tão perfeito
um desenho de elefante
minha serra, meu filhote
marca a terra de onde eu vim
me desperta um sentimento tão confuso
um desespero tão contente
proteger esse lugar, é a mesma coisa
- nobre e necessária -
que cuidar da mãe doente


era de tardezinha
e os sapos testemunharam
a alegria da lagoa
ao receber aquele corpo


vejo muito acima das copas dessas árvores
posso ver o gosto sacro do meu passado longe
miro o céu azul no cristalino
e as nuvens embaçando
se atrevendo a me encostar a água
pulos que eu podia dar a terra comeu
e meu peito fugidio teima em não permanecer
quase sempre sou mercadoria
sacolejando num caminhão
a liberdade, o abandono
poesia dos outros me parece forçada
poesia minha também me parece
letra que enrosca em mim sem forçar a porta
é velhinho bonito de olhos miúdos
banho que eu tomo é de barros


água do mar salgando a boca
os olhos ardendo com a fumaça
eu não me importo em ficar triste
tristeza vem e passa


a escola era
o singelo educandário são josé
e a professora perguntou
o que a gente ia ser quando crescesse
todo mundo deu respostas ensaiadas
inclusive eu
o meu primo era o único
que queria ser pedreiro
as crianças - todas bestas! -
riram dele sem piedade
não deviam ter zombado
"eu quero ser pedreiro"
foi a coisa mais bonita
que eu ouvi na minha vida!


badan me espera
com todo o seu relincho
e as patas a trotar na terra
badan não tem frescuras
badan não tem caprichos
o bom do dia é que badan me espera


não carrego este papel de bala
até o fim do mundo
nem por um salário alto
nem por beijo vagabundo
não carrego esta sujeira
que embriaga meu quintal
embaraça meus adubos
tem inveja do meu sal


o que me faz bem
são as folhas e suas nervuras
a luz que confunde e define tudo
as fotos das bicicletas
os passeios dos meninos
observando os cavalos
coluna dói,mas é bom
músculos retesados
só provam pro mundo que eu valho

alguma coisa
qualquer moeda
eu sirvo pra salvar alguém


*publicada
originalmento na Cronópios.

Esta poesia é de verdade e estética sincera e forte, fluida. Enfim, coisa rara.

Oliverio Girondo

Tradução de Adriana Zapparoli, publicada na Cronópios.

Para mim

Os mais escuros estremecimentos para mim
entre as extremidades da noite
os abandonos que crepitam
quanto vinho a mim acompanhado
pelas miragens do desejo
o inteiramente liso na penumbra
as enchentes menores já que com lua
ainda quando o sonho ulula entre mandíbulas transitórias
as teclas que nos tocam até o osso do grito
os caminhos perdidos que se encontram
baixo a folhagem do choro da terra esperança que espera os tramites do transe
por muito que se apóie nas conjunturas do fortuito
para mim para mim a plena íntegra bela para mim hórrida vida


Em especial:
"os caminhos perdidos que se encontram
baixo a folhagem do choro da terra"

"las crecidas menores ya con luna
aunque el ensueño ulule entre mandíbulas transitorias"


Aparição urbana

Surgiu de baixo da terra?
Se desprendeu do céu?
Estava entre os ruídos,
ferido,
malferido
imóvel,
em silêncio,
cravado ante a tarde,
ante o inevitável,
as veias aderidas
ao espanto,
ao asfalto
com seus cabelos caídos,
com seus olhos de santo,
todo, todo desnudo
quase azul, de tão branco.

Falavam de um cavalo.
Eu creio que era um anjo


Baía Anímica

Abra casa
de gris lava cefálica
e confluências de acúmulos de lembranças e luzbatido cósmico
casa de asas de noite de arrebento de enluarados espasmos
e hipertensos tantas de ausência
casa cabala
cala
abracadabra
médium lívida em transe sob o gesso de seus quartos de hóspedes defuntos travestidos de sopro
metapsíquica casa multigrávida de neuroses e ubíquos ecosecos de circuitos asfixiados
clave demonodeia que conhece a morte e seus compassos
seus tambores afásicos de gazes
suas finais comportas
e seu asfalto

Em especial:
"Abra casa
de gris lava cefálica"

"casa de asas de noite"