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16 August 2018

Mais Alberto Caeiro - favoritos

XXXII

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.

Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.

E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.

(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importa a mim os homens
E o que sofrem ou supõe que sofrem?
Sejam como eu -- não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,

Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)

Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.

(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com o florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa -- existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.

E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?


XXXIV

Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa...

Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas...
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente...

Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela tiver, que a tenha...
Que importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.


De "Poemas completos de Alberto Caeiro", Fernando Pessoa

15 June 2018

VII

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


De "O guardador de rebanhos" - Alberto Caeiro

24 April 2018

24 February 2018

Biscoito da sorte

Saia do facebook e encontre o seu centro outra vez.

6 January 2018

Seguindo o olhar

As montanhas que andam sobre as águas do leste
Não apontam para uma só direção

Elas existem na cortina de fumaça
Que despega de nossos olhos
curiosos e preguiçosos de tempo


Karinna A. Gulias

26 September 2017

A perda da paixão

Um guia de como se apaixonar por si mesmo no olhar do outro:

Um copo d'água

E uma vergonha nas bochechas sem futuro.

--
O tempo passou no caminho de Abraão. E assim me desvio.

E quando se desvia desse caminho, o de Abraão, que percorre montanhas e vales num tempo maior que de uma vida,
se acha um bebê que olha para três lados -- Com vida e pernas que andarão.



Karinna A. Gulias



8 July 2017

Is Heidegger a face of Dōgen?

12

“You may suppose that time is only passing away, and not understand that time never arrives. Although understanding itself is time, understanding does not depend on its arrival.

People only see time’s coming and going, and do not thoroughly understand that the time-being abides in each moment. This being so, when can they penetrate the barrier? Even if people recognized the time-being in each moment, who could give expression to this recognition? Even if they could give expression to this recognition for a long time, who could stop looking for the realization of the original face?

According to ordinary people’s view of the time-being, even enlightenment and nirvana as the time-being would merely be aspects of coming and going.

(…)

16

Zen Master Kuei-sheng of She Prefecture is the heir of Shou-shan, a dharma descendant of Lin-chi. One day he taught the assembly:

For the time being mind arrives, but words do not.
For the time being words arrive, but mind does not.
For the time being both mind and words arrive.
For the time being neither mind nor words arrive.

Both mind and words are the time-being. Both arriving and not-arriving are the time-being. When the moment of arriving has not appeared, the moment of not-arriving is here. Mind is donkey, words are a horse. Having-already-arrived is words and not-having-left is mind. Arriving is not “coming,” not-arriving is not “not yet.”

17

The time-being is like this. Arriving is overwhelmed by arriving, but not by not-arriving. Not-arriving is overwhelmed by not-arriving, but not by arriving. Mind overwhelms mind and sees mind, words overwhelm words and see words. Overwhelming overwhelms overwhelming and sees overwhelming. Overwhelming is nothing but overwhelming. This is time.

As overwhelming is caused by you, there is no overwhelming that is separate from you. Thus you go out and meet someone. Someone meets someone. You meet yourself. Going out meets going out. If these are not the actualization of time, they cannot be thus.”



Extracts from “The Time-Being (Uji)”, written by Zen Master Dōgen (Japan, 1240) – Translation by Dan Welch and Kazuaki Tanahashi

21 May 2017

Paperback edition of THE SEAFARER, THE SEA: She Awes now available online

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3 March 2017

'O Valete de Espadas'

"Uma resposta é uma coisa séria, mesmo quando se trata de um cumprimento. Há sempre o perigo de responder errado. Por isso, às vezes -- muitas vezes -- prefiro passar por incivil e não respondo. Todos os erros do mundo se devem a respostas erradas. Além disso, aquele "bonjour, m'sieu"-- foi tão débil e maquinal, que não lhe correspondia resposta alguma. De palavras assim, o povo diz que entram por um ouvido e saem pelo outro. As verdadeiras perguntas talvez nem entrem pelo ouvido. Caem no coração e ficam batendo aflitamente as asas, como um pássaro no alçapão."

"Em que língua deverei falar? É fora de dúvida que não estou em meu país. Em meu país todos os homens são deliciosamente morenos e de belos rostos compassivos. Estes são ruivos, louros, calvos, narigudos. Todos os sinais de imbecilidade e grossura das raças louras. De qualquer maneira, é preciso perguntar."

"Aproximei-me do porteiro. Ia crivá-lo de perguntas. O homem estendeu-me maquinalmente o braço para receber uma coisa que eu tinha na mão. Hesitei um momento, e estendi-a:
--Sim, senhor. Minha chave."

"Fiquei curioso para ver a face dos outros, e olhei as mesas em redor. Um bigode maior, um bigode menor, mas todos do mesmo feitio. As senhoras e senhoritas provavelmente pintaram os lábios com o mesmo batom. São faces de um clichê coletivo. Quem será o autor desse clichê? São rostos sem mistério. Mas estão longe de ser francos. Os rostos verdadeiramente francos abrem janelas para o mistério. Não são assim despejados."

"Dói muito a condição dos homens. Está sujeita a todo um jogo de engrenagens inesperadas. As plantas e os animais são mais felizes, porque morrem com muita facilidade. As orquídeas do Equador e as jandaias cearenses não saberiam viver um dia nas regiões polares. Não aceitam a mudança. Seria a metamorfose. E entre a metarmofose e a morte, preferem a morte." -


Trechos de 'O Valete de Espadas', Cap. I, de Gerardo Mello Mourão

1 March 2017

The balance of the limbs
Inside a flower

A blend of muscles and breath

And us, centaurs without a horse,
Fooled by our own reading

Be either ourselves churches or belonging to one
Oh, dear! Of the lords, this is power. Believe.

Flower, oh flower of the giants

From dust, it is:

CARITAS


Poem from my book "The Seafarer, The Sea: She Awes."

17 February 2017

The Disappearing Buddha?

"(...) So people, many of them projected onto me, whether positively or negatively, but yes they projected. And because they projected they weren't really able to experience me or communicate with me as I really was. I won't say really was in the ultimate metaphysical sense, but at least as I really was in the more conventional sense. And it's because they were unable to experience me as I really was, so to speak, that the real communication between us could not go beyond a certain point."

 "Here we're too different, we can be a little bit different of course, well we are different anyway, but we mustn't be too different, otherwise people will project onto us and projection interferes with communication."


Fragments from 'The Disappearing Buddha' by Sangharakshita (https://www.freebuddhistaudio.com/texts/read?num=183&at=text&p=3)

What Sangharakshita says in these fragments apply to many other cases. When, for example, a Tao follower or any other foreigner doesn't know whether he or she is judgemental or is overloaded by so many strange projections onto him/her. It's quite tiring and it does block any possible spontaneous communication with people. It can also apply to people's communication via social networks, in which one's political views, if not fitting into a standard view of political correctness, can be targeted with speech projections of other people's prejudices as a means of Catharsis, purification.

8 February 2017

O Presságio das Arribações

As estações mudam, como de se esperar, ante as nossas vistas núbias. Arribações pressagiam desgraça. Uma festa de urubus tomando a cor do sol nascente. Preparam-se para limpar as carcaças.

Imigrações em massa. Início da seca, da fome.

Eu sou um pássaro e mesmo assim ponho um ovo a mais sobre a planície dos mundos. Por que questionar as vilezas de um tempo assim? Eu também tenho o meu fim no horizonte. Que eu então me ocupe de meu ninho e me esqueça das nuanças entre bom e mau. Isso eu deixo aos tolos. Que percam os seus digestivos.

Se questionar a maldade é somente questionar as grandes mídias, mesmo que não traga nada mais do que confusão, a que me serve? Que se dane o progresso do mundo. De nada saberei entre o mau e o bom espelhando-me em tolices. Eu não perco a minha face perante o tempo. Que eu sou finito, eu sei. Assim como todos os meus vizinhos. Logo, seguirei procurando rios e bebedouros.

Sei também o que há por vir. Que quando os urubus chegarem, eles serão os nossos heróis. E meus vizinhos os seguirão, mesmo depois de tanto os condenarem. E a visão do futuro será tomada por pássaros comendo os olhos dos mortos. E talvez de alguns vivos. Em suas vastidões, o medo e a fome girarão a grande roda do mundo mais uma vez.




Texto de Karinna A. Gulias

26 January 2017

Live is greater



Sempre gostei da alma um tanto árabe desta canção. O que injustamente não encaixa tão bem é a letra, óbvia. A maneira de cantar de Dulce Pontes não é a minha favorita, mas eu gosto neste arranjo ao vivo, pois Dulce improvisa e canta com paixão.

Há uma outra versão também muito bonita de Amália:

13 December 2016

Novo poema, novo livro


Poema do meu novo livro "Estória: Significados da Continuação"

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Novo poema, novo livro


Meu novo livro se chama "Estória: Significados da Continuação"

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